De repente você chega naquela idade em que você riu tanto nos filmes água-com-açúcar. Do nada aquele comentário de um parente aqui e outro acolá faz você se sentir preocupada.
Você está solteira. E faz muito tempo.
É um clichezão e do mais merda possível. E aparentemente, é muito menos dolorido quando você está vendo uma gordinha louca fazendo um papel de otária num filme bem morno (que aliás, você nem sabe porque alugou).
Sempre joguei bem o jogo de estar solteira. Aliás, a lista de EXs pode bem dizer que sou melhor jogadora sozinha do que acompanhada. E foi por isso que fui abandonando um por um os companheiros de viagem. Sendo a mais filha da puta possível: desaparecendo, sumindo, deixando de atender ligações. Assim do nada, bem escrota mesmo.
Mas isso foi há muitos anos, rapazes. Relaxem: hoje eu olho nos olhos pra dizer adeus.
A questão toda foi que a conversa com o tio me deixou incomodada, coisa que nunca aconteceu durante todos esses anos. "Mas você está a quase um ano na Europa e nunca apresentou um namorado pra gente? O que acontece com você?"
Não soube responder. Não num nível de conversa que se pode ter com seu tio. Eu não poderia explicar sem deixar de lado a educação e sem dizer a porra de um palavrão, para definir bem meu ponto de vista.
Os ataques continuavam, com outros membros da familia, que sempre apontavam pro mesmo local: como assim eu não tinha me enamorado por um espanhol bonitão? Como assim não tinha foto minha com um italiano lindo dizendo ser meu namorado? Como eu poderia estar solteira num lugar onde só tem gente interessante e bonita? Aliás, como eu poderia estar solteira at all? Em todos esses anos? Como, com essa idade?
As perguntas vinham sem tempo de pensar em respostas e vinham diariamente pela tela do computador. Em algum momento essa conversa passou a não precisar de interlocutores: elas entraram dentro da minha cabeça e é claro que passei a questionar minha vida amorosa passada.
Sempre que a vida e o discurso dessa mulherada chega nesse ponto há muitos olhares de reprovação por parte dos outros. Não estou falando da parentaiada que bota em julgamento nossa capacidade feminina por causa de um status no Facebook. Estou falando dos olhares de reprovação daqueles que acreditam ser besteira entrar nessa furada.
É claro que é ridículo ficar mal por causa de parentes antiquados, amigos inconvenientes e conhecidos gerais que apontam sua solteirice como sinal de baixa moral. Claro que é rídiculo.
Mas saber disso não faz sumir as vozes na cabeça dizendo que eles podem ter razão. De que, afinal, você não teve um relacionamento sério desde... nunca! Deve, com letras garrafais, haver algum problema com você.
Então você entra numa onde bem ruim quando começa a tentar se justificar para si mesma. As desculpas começam sempre mais lógicas: você nunca aguentou um relacionamento sério. Deve ser algum problema de confiança com o outro.
Você repassa a lista dos antigos pretendentes. Você percebe que não duraram mais de seis meses. Você percebe que nunca apresentou ninguem para a familia. Você deve ter algum problema.
Ah, você sempre foi meio gordinha né? Você nunca conseguiu ser uma mocinha comportada. Será que você não está falando palavrão demais? Será que você está bebendo muitas vezes? Será que sua inteligência está assustando? Será que você tem alguma inteligência?
Sem perceber você está tentando se defender de si mesma com pensamentos que são bem mais rápidos do que o digitar do seu tio.
Um momento de silêncio e uma pergunta aparece meio embaçada na sua cabeça e vai ficando mais nítida conforme você franze a testa para ler: quem diabos disse que você quer namorar?
Você começa a lembrar que foi você quem terminou, quem não aguentou ficar presa. Você se lembra que quem fugiu da apresentação à familia do pretendente foi você.
E se lembra que o motivo era porque estava de olho no bonitão da academia. Ou porque estava começando a ter uma paixão tórrida pelo melhor amigo - e correspondida! Ou que estava tendo uma relação sexual constante por meio de poemas com outros caras!
Que os motivos para terminar era porque queriam você exclusivamente e isso você não pode dar. Porque você adora compartilhar.
Não poderia abrir mão dessas paixões refrescantes que aparecem ocasionalmente e depois se dissolvem na chuva. Não pode abandonar a idéia de se relacionar por meio de palavras. Não pode largar a posição de amante. Não pode se furtar o momento de experimentar outros braços, no meio de outros braços, no meio de outros braços, nos meios de outros seios. Como explicar para aquele um que, não é que ele não seja legal, mas é que você sempre teve vontade de experimentar uma coisa diferente, uma coisa mais, digamos feminina. E depois, como explicar para essa menina que, não é por mal, mas você quer voltar aos carinhos masculinos e que ela só pode se for de vez enquando... como explicar isso para alguém que já gosta de você?
Um dia um ex falou algo lindo e assutador: as vezes te desejo tanto que tenho a sensação de sufocar. As vezes queria você o tempo todo só pra mim porque você é o tempo todo minha maior novidade.
E eu não consegui explicar que só consigo ser novidade quando posso me movimentar.
O que posso oferecer são minutos intensos de absolutamente tudo de mim, mas ainda não consigo aguentar parada durante horas, dias, meses. Eu preciso de ar para ser feliz.
E então, voltando ao diálogo, um dia você manda tudo pra casa do caralho, e em plena conversa virtual familiar você soletra devagar, com um sorriso muito disfarçado: F O D A - S E.
1 dia atrás
