II
Nesse período, eu tinha uma relação bem conturbada com o primeiro namoradinho: do tipo machão, bad-boy, niilista, ouvia punk, assistia filmes do Zé do Caixão, dizia ser anarquista. A combinação era perfeita demais pra me ajudar a piorar.
Tinhamos brigado pela centésima vez. Não me lembro do motivo, mas se for para apostar, arrisco dizer que era por alguma das traições. Porque, é claro, havia traições. Muitas. Mas eu era inocente demais pra entender.
Nossa relação sempre fui muito estranha porque não éramos exatamente companheiros. Ao invés disso, éramos competidores. Para qualquer coisa, qualquer motivo, qualquer conquista.
Quando nos conhecemos e viramos “melhores amigos”, nossos pensamentos diferentes tinham que ter argumentos muito fortes.
Ele era pessimista, eu sonhadora. Então nossa diversão consistia em encontrar argumentos para derrubar o pensamento do outro. Não necessariamente nas mesmas áreas.
Eu tinha um emprego melhor, mas ele tinha mais amantes; eu tinha bolsa na faculdade, ele tinha respeito entre os amigos; eu conhecia mais de tecnologia, ele de música. E assim ia.
Mas acredito que ele sempre ganhava quando se tratava de ter amante. Eu nunca tive nenhum, naquela éppoca: nem sabia o que fazer com isso.
Mas vamos dar algum valor ao cara: ele tinha três amantes, ao mesmo tempo. Descobrimos quando a ex ligou pra mim chorando dizendo que estava achando ele estranho. “Acho que ele está me traindo com outra” ela disse. Depois do susto, dei risada. É claro que ele está te traindo... Ele está me traindo também.
Isso tudo seguido por cenas de dramalhões mexicanos: quando nós duas chegamos na casa dele para tirar satisfação, uma terceira estava saindo. Fiquei na dúvida entre tentar apartar a briga entre ele e a ex ou ir embora.
Teve cuspe na cara, um chamando o outro de safado - tudo entre os dois, é claro. Uma beleza para toda vizinhança em plena tarde de semana, ninguém no colégio. Foi lindo de ver. Mas resolvi ir embora enquanto estava por trás da história, sem ninguém me ver como coadjuvante.
Eu sabia que ele tinha outras, mas me sentia estranha por não me sentir mal com isso. Quer dizer, me sentia muito mal, mas não era por ser traída e sim porque, de alguma forma, ele estava ganhando a competição. E eu me sentia uma otária, é claro, isso me frustrava.
Voltamos algumas vezes depois disso, mas a coisa nunca mais foi pra frente, acredito que porque não tinha mais confiança - nem graça. Jogar baixo tornava as competições mais chatas porque eu não tinha os mesmos macetes - pelo menos não naquela época.
Durante os mais de sete anos de amizade/namoro sempre achei que ele não me quebraria. Mas hoje, olhando pra trás, vejo que aquela situação inicial está um pouco diferente: eu me tornei uma realista egocentrica, ele um fraco conformado.
4 dias atrás
0 000 comentários:
Postar um comentário