"- Eu to poco me estrambelhando pra essa série de boboquices entre pesssoas alheias. - Eu também, vamos dar no pé." Lucas Zecchin em "Lucas Zecchin"

Junho 09, 2011

Três

Os planos macabros para acabar com aquele sofrimento estavam bem adiantado. Uns estudos mais profundos me mostravam detalhes de como fazer: consegui vídeos e manuais passo-a-passo. Conseguiria ter feito uma cartilha ilustrada, se tivesse mais tempo.
Eu levava tudo na base da racionalização, interpretando tudo na praticidade de uma estratégia séria e concisa. Mas planejar como morrer tomava um tempo grande meu e acabei distraída no processo.
Era intrigante demais estudar como as culturas tratavam esse tabú. Ficava impressionada com as opiniões do pessoal, especialmente de quem era religioso, condenando a prática, é claro.
As reações mais comuns que percebi nesse estudo era sempre de que quem cometia era um fraco e que iria para o inferno... motivações muito fraquinhas para me fazer desistir.
Mas, mesmo que tudo isso me fosse muito interessante, também estava dando duro para saber como realizar as tarefas da lista. Nesta parte, falar com outras pessoas era uma coisa inevitável, porque as tarefas sempre envolviam alguém.
Uma delas era fazer uma tatuagem maluca, com significados muito complicados para compartlhar, que carrego até hoje e que envolveu conhecer quais eram os melhores estúdios de tatuagem da cidade, até culminar na decisão precipitada de fazer a bendita num estúdio suspeito num bairro safado da cidade.
Depois de meses procurando os melhores tatuadores, acabei decidindo pelo mais barato e o resultado final só não foi mais desastroso porque o desenho era simples demais. Tão simples que a tarefa de responder aos que perguntavam “o que significava”, ficou cada vez mais chata, até chegar à uma explicação mal dada, mas bem resumida: simetria. Isso deveria acalmar os ânimos de quem perguntasse até que eu conseguisse sair de fininho para não contar o processo complicado da escolha daquele desenho.
Acontece que durante esse período, a lista cresceu. De cinco tarefas - completadas com louvor duvidoso - a lista passou a dez e, daqui uma semana, vinte.
A lista se tornou imensa e, pouco a pouco, a história de suicídio passou a ser uma lembrança sombria e mórbida que acabei não dividindo com mais ninguém, além da família que sofreu dramas horrorosos comigo.

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